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DICTATUS PERPETUUS
Por: Jose Edgar R. B. Pereira; direitos de autor de l995 a l997
Telef. No. (5l0) 234-l392


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I Acto

Salao medieval com um grande e alto estrado; em cima do estrado vasta secretaria, contendo 13 cadeiras, a do meio de espaldar alto e trabalhado; 30 carteiras modernas a alguma distancia do estrado; uma porta lateral larga e alta do lado do estrado; uma porta envidracada a toda a largura da parede do fundo, dando para uma cerca de razoaveis proporcoes; cerca arborizada.

Entram primeiro os professores e o reitor, este academicamente paramentado de capelo e vao ocupar as cadeiras da ampla secretaria no estrado, com o reitor ao centro; entram depois os vinte alunos, que ocupam as primeiras carteiras, deixando as do fim vagas; os alunos espalham os instrumentos de trabalho em profusao pelas carteiras ocupadas em sinal de desrespeito. Depois de se sentarem, os alunos levantam-se de repente e cercam, tentando encobri-lo, Joao; a cena dura cerca de 3 minutos, silenciosamente, por entre a admiracao dos professores, que se olham entre si e ao reitor, estupefacto, que se preparava para usar da palavra quando os alunos se levantaram e cercaram, tentando, de pe, encobrir Joao, que se conserva sentado.

Subito os alunos distribuem-se ao acaso pelas carteiras, deixando entre si algumas vasias e chamando a si os instrumentos de trabalho.

Quando tudo volta ao silencio e cortando a palavra ao reitor, que se prepara novamente de usar dela, Joao salta de uma das primeiras carteiras onde se tinha sentado, da dois passos em frente em direccao ao estrado e de frente para todo o corpo docente, olhando-o fixamente, comeca.

I Cena

Joao(em tom de proclamacao, rapido e alto)

-Ficai com os vossos livros miseraveis, com a vossa consciencia de ignominia; nos, vossos filhos, renegamos-vos, temos vergonha pelo vosso procedimento; que pretendeis? Que vivamos condenados a morte sem esperanca, como vos? Nao, nao podemos: o vosso cancro (que trazeis convosco, que enganais e entreteiscom as pilulas da vossa cultura, que ao herdar nao tivestes a coragem de renunciar), que vos mata lentamente, sera para nos uma bala que traremos encaxada no cerebro e que nos condenara a morte em prazo fixo; nao, nao queremos ser condenados a vida, com a pena de gerarmos filhos que nos continuem e cuja a condenacao nao podemos imaginar, quando lhes doarmos a cultura que vos permitis legarnos. Chega de vos enganar-vos propositadamente - e quantas vezes com a nostalgia do momento longinquo em que, por vossa vez, vos quizestes revoltar contra a imposicao da cultura de vossos pais e vos acobardastes a resignacao frente as dificuldades, que vos manhosamente, embora o sabendo, postulastes de insuperaveis, crendo-vos incompreendidos genios que padecieis como justos nas arenas dos Cesares - e quereis acalmar-nos a nos; nao vos falo tao so em nosso nome, como dos nossos filhos tambem; e deles que, ja nao nos mencionando, tememos o juramento; nao e vossa a doutrina da luta da sobrevivencia das especies? Defendemo-nos.

sabemos bem o que agora sentis para que o queiramos vez alguma sentir: levantai as cabecas, se sois capazes, olhai-nos de frente e condenai-nos, como vos condenamos a vos; nao e vossa a doutrina que o reu deve estar de cabeca curvada e o juiz com ela levantada? Se ja tantas vezes vos tentastes pela nossa solucao, se ja quisestes emendar a vossa falta inicial (esse pecado que imputais aos vossos lendarios Adao e Eva) so tendes um caminho, ajudai-nos: porque se o nao fizerdes perder-vos-eis e nem a vossa propria doutrina de morrer com honra aproveitais; mas se o nao fizerdes perder-vos-eis porque nao nos deteremos ante as vossas proprias vidas: acabou-se, a caldeira esgotou a pressao, vai rebentar. Chegou o momento que temeis: ja nada pode salvar o vosso mundo, os vossos proprios filhos vos condenam a queimar-lo ou a morrerdes nele. Chega de perder tempo, acabou-se o vosso jogo de palavras cruzadas na vida; recusamos a continuar a vossa secular obra de carrascos da maioria; fazemos greve ao vosso ensino, negamos-nos a colaborar na coisa publica e privada, faremos perecer as vossa intencoes e educaremos os nossos filhos na limpida e real verdade. Chamai agora os vossos verdugos, esses famintos agentes da vossa ordem, para nos amedrontar e repreender, ja que nao e suficiente os mandares contra indefesos populares armados ate aos dentes, veremos quem vence.

(Fuga para fora da cena pela porta do fundo em corrida e bastante algazarra de todos os estudantes a excepcao de Joao, que continua a enfrentar o reitor da Universidade e restantes professores; todos os livros e sebentas aparecem rasgados, a vez, deliberada e intencionalmente, pelos alunos durante a cena precedente; lapis partidos, tinteiros esvasiados pelas carteiras, numa desordem anarquica. Finalmente, perante o completo e sepulcral silencio parado que se faz no salao, o corpo docente ergue as cabecas, mas ao dar com os olhos na figura de olhar tetrico de Joao amedronta-se, baixam-se e erguem-se as cabecas com visivel mal estar e, a comecar no reitor, dao sinias de nao poderem suportar mais a cena. Por fim, num andar calmo e descontraido, mas firme, Joao sai da cena pela porta lateral direita, a altura e esquerda da secretaria onde esta sentado o corpo docente, porta tipicamente medievalista alta e larga, para dar passagem a cavaleiros montados que se baixam ligeiramente.)

II Cena

(Baixado o pano sobre a 1a. cena, ergue-se o pano da cena ao lado, dando visao para uma rua vulgar, com automoveis modelo 1964 e predios intercalares, onde Joao caminha nitidamente com um fim em mente. De fora da cena ouve-se um grito aflito de Maria a chamar Joao; vao encontrar-se mesmo no fim da rua entre os dois ultimos predios. Entretanto, passam transeuntos que mal parecem dar pela presenca dos dois personagens principais, apenas alguns olhando para tras quando Maria grita por Joao e confirmando ser este o moco chamado, para o que olham normalmente para ele, continuam a sua passagem nos dois sentidos da rua, cruzando-a, entrando em alguns predios e desaparecendo; ha circulacao rodoviaria, se bem que o transito de veiculos seja apenas de motorizadas e bicicletas de pedais, alem de que nao muito intenso, e os automoveis, em numero pequeno tambem, estao estacionados. Maria, que aparece esbaforida e cansada, arrasta Joao no espaco entre os dois ultimos predios para a boca da cena; primeiro Maria arrasta Joao por um braco; Joao de bracos baixos e reprovativamente meditabundo; depois Maria de ambos bracos a agarrar os de Joao).

Maria(em tom rapido, aflitivamente implorante e lamentoso, meio gritado e choroso)

-Joao, foge Joao: tu e que es o presidente da Associacao dos Estudantes, tu e que es conhecido como cabecilha da intentona; ja soube do teu discurso na reuniao dos chefes da Associacao com o corpo docente da Universidade, para abertura do ano escolar- ouvi-o pela radio Universidade; estas perdido Joao, ouvi-o ontem a noite da boca do meu pai em conversa com os amigos em minha casa, diz que nem o teu pai, como ministro te salva: vais ser preso e levado a responder num tribunal, sendo condenado pesadamente para exemplo dos demais colegas; todos os chefes da Associacao vao ser condenados, uns mais que outros, a prisao temporaria. Foge Joao, a tua vida corre perigo serio, pois vao tentar matar-te nos recontros que possam haver entre vos e as forcas publicas. Pelo amor que me tens, ja que nao cres noutro, Joao foge para Paris ou Londres enquanto e tempo, pois eles descobriram as tuas ligacoes com o movimento operario e afirmam que so com a morte largas o viro socialista que apanhaste; foge meu amor, talvez que na verdade o movimento nao esteja suficientemente maduro e mais tarde, sem o sacrificio presente da tua ou mais vidas, se consiga o exito que todos queremos.

Joao(em tom firme e inabalavel, mas um tanto leccionante e meigo)

-Nao Maria, nem todos queremos esse exito que disseste; para provarmos que o queremos temos que enfrentar o perigo maximo e sem essa prova nao nos temperamos para enfrentar a vida, de mole e semi-morta que ela anda, e nunca sera o momento proprio para resistir; nao, nao podemos retroceder, isso vimos nos fazendo ha muito e agora estamos preparados para enfrentar o pior; a propaganda deu o efeito desejado, a opiniao publica esta informada do nosso proposito e esta connosco; nao, nao fugiremos, a verdade e a justica estao connosco e nao com eles, a realidade e nossa e a asquerosa fantasia e deles, a saude e o bem pretencem-nos e eles so tem a leprosa consciencia do mal; nao, nao cederemos o nosso espirito para eles o trabalharem estandardizadamente, nao nos deixaremos fazerem-nos maquinas e nao temos medo de sermos devorados pelo monstro do labirinto.

A mascara caiu, caia o fascismo, viva a revolucao!

(final de frase em berros)

Maria(agora em lagrimas e gritos desesperados)

-Nao, foge Joao, ja os cavaleiros do pesadelo correm para a tua perdicao. Olha-os la ao longe (aponta), a galope, de espada desembainhada e faiscante, eles querem saciar-se no teu sangue, eles vao tirar-te a vida.(ouve-se efectivamente o galope longinquo de diversos cavalos, cada vez mais proximo)

Joao(que comeca a correr no sentido que chegou)

-Adeus Maria, receberas noticias minhas, mas nao penses que sou cobarde.

Maria(em gritos cada vez mais chorosos e desesperdos)

-Joao, para Joao: nao queres ver o filho teu que sinto nas minhas entranhas? Queres perder-te?

Joao(que para repentinamente, volta para tras correndo e, com expressao alterada, nao podendo suportar a emocao, mas tragicamente encarendo Maria, muito serio e tremendo visivelmente)

-Nao, nao pode ser, nao quero!Repete o que disseste.

Maria(abanada por Joao com as duas maos e chorando)

-Sim Joao, e verdade, ja nada o pode evitar, que nao o quero, aconteca o que acontecer. Escolhe Joao, escolhe entre: mim, o teu filho e a tua vida, e a Revolucao e a tua morte.

Joao(que luta desesperada e drasticamente consigo proprio, tremendamente emocionado e suando)

-Nao Maria: a vida e nossa, ou lhe sorrimos ou ela nos escarnece.

Maria(nas mesmas condicoes anteriors)

-Tu perdeste Joao, mas lembra-te que te amarei sempre, haja o que houver.

(beijam-se longamente e despegam-se, para Joao voltar a atras correndo, para voltar a beija-la. Por fim, de maos estendidas de um para o outro e de frente, Joao recua uns passos e depois volta-se para a frente a correr, ficando Maria ainda de bracos estendidos para ele e chorando convulsivamente num adeus infidavel, e caindo lentamente para se sentar, posicao em que fica de cabeca no regaco,toda curvada, solucando, a chorar desconcoladamente ate Joao desaparecer no fim da rua,os cavaleiros da G. N. R. portuguesa passarem a galope (talvez figurativamente) na rua e cair o pano, quando estes, em pequeno grupo, saem pelo fim da rua).

II Acto

(No primeiro cenario, com os professores a discutirem e os alunos na cerca em grande algazarre, que cobre as vozes dos primeiros, e actividade intensa que se nao consegue descobrir, entra Joao pela porta lateral em corrida esbaforida; para um momento a olhar reprovativamente os professores e encaminhasse para a cerca arborizada pela porta do fundo; chama, sem folego e em agitados gestos, pelos colegas, que a principio nao se apercebem dele; por fim consegue fazer-se notar e exulta-os a resistir aos cavaleiros)

I Cena

Joao(em tom de comando e em voz alta, com os professores em silencio a escutarem)

-Rapazes, rapazes: os verdugos perseguem-me, resistamos. Voltei atras a avisar-vos. Todos a postos e preparados.

(Ouve-se o barulho do grupo dos cavaleiros que chega: veem-se os pescocos das primeiras montadas pela porta lateral do salao. Adianta-se o comandante do poletao; entretanto os homens desmontam e fazem desaparecer os cavalos, a conferenciar com o reitor, que parece nao querer ceder o passo a forca publica, mas perante uma ordem escrita do tenente cavaleiro, encolhe os ombros e, por gestos, ja que se nao ouvem as vozes do salao pelo barulho dos estudantes e demais, convida os professores a sairem da cena; entretanto, os ertudiosos tomam posicoes por detras das arvores e, com Joao na chefia, preparam-se para lutar, Depois dos professores abandonarem o salao o tenente formar os homens , cerce de 15, e a frente deles, de mao levantada em sinal de paz, aproxima-se da porta do fundo; vem armado de pistola a cinta e tem a espada desembainhada.)

Tenente(em tom de proclamacao, mas brando, a pedir compreensao)-Estudantes, rendei-vos, nao estamos aqui para vos fazer mal, apenas vos pretendemos detener para cumprir formalidades.

(grande algazarra dos estudantes, que respondem com chusmas, assobios e "nuncas" gritados)

--Apenas queremos prender Joao Castelo e Silva e deixamos os outros ir em paz; cumprimos ordens.

(maior gritaria e uma saraivada de pedras, que podem ser simuladas e substituidas por pedacos de borracha ou cortica, obrigam o tenente, garboso a antiga no seu fardamento, a recolher-se rapidamente, sem poder evitar que algumas dessas pedras o atinjam e despedacem parte da vidraca. Depois, em sequencia logica, o tenente da ordem para os homens avancarem de espadas desembainhadas: mas estes sao recebidos com o mesmo processo, tres vezes atacando e tantas retrocedendo cada vez mais mal tratados, pois estupidamente nem sequer sabem abrir toda a porta do fundo e apenas podem passar tres de cada vez pela parte aberta da porta, sendo recebidos, de cada vez que tentam alcancar as arvores, por cerrada e certeira camada de pedras, de que se nao podem defender e mover no seus pesados uniformes; dura a batalha cerca de 15 minutos e, por fim, o tenente, que tem estado a comandar a operacao, perante a impossibilidade manifesta em conseguir prender os resistentes, da ordem de retirada a forca publica.)

II Cena

(No salao, os estudantes que entram esbaforidos e risonhos, ainda com pedras na mao.)

Joao(que grita para se fazer ouvir, pois todos gritam e chalaceiam)

-Rapazes: vamos embora antes que cheguem os policias com gaz lacrimogenio e metrelhadoras, que contra esses nada podem as pedras. Trate cada um de se esconder como possa durante uns dias que todos fomos marcados, especialmente eu, e os tipos querem exterminar-nos a viva forca. Depressa, toca a dispersar completamente.

(Quando se encaminham para a porta lateral, veem surgir um homem de uns 30 anos que gesticula para fora chamando alguem; de repente reconhecem nele um dolega e compreendem o papel dele a guiar uma forca de policia apta a entrar de choque; os mais proximos pucham por ele para o meio do salao aos gritos de "morra o bufo" e todos comecam a bater-lhe ate deixa-lo estendido por terra; porem, alguns foram buscar pedras a cerca e juntam as que ja tem para arremacar aos policias, que ineptamente entram todos juntos para o salao, nao se isolando dos estudantes, que imediatamente comecam a apedreja-los. Gera-se grande confusao e os policias perdem a melhor oportunidade para procederem a prisoes, pois agarram este estudante para serem batidos por aquele e num circulo vicioso so conseguem apanhar pancada. Dura a cena 10 minutos em grandes gritos e, de repente, ouve-se a busina de um automovel seguida de um barulho cavo de travoes a fundo: entra no salao, por momentos calmo e silencioso, um personagem de meia idade e ouvem-se vozes de "o sr. ministro"; este vai falar com o tenente policial, que reverenciosamente manda recolher a forca publica, que desaparece da cena.)

Ministro(em tom calmo e paternal)

-Joao, meu filho, este senhor cumpre ordens, entrega-te-lhe que seras bem tratado; nao resistas que e inutil; e vos, estudantes, ide todos em boa ordem para vossas casas, que sereis chamados a depor em devido tempo

(assiste-se a saida dos universitarios).

Joao(em tom ligeiramente alterado e admirativo)

-Mas papa, tu estas-me a entregar nas maos dos meus verdugos, coisa que eles nao conseguiram fazer sozinhos, pois resistimos bem.

Ministro(em tom persuasivo)

-Joao, faz por compreender, depois explico-te melhor: o chefe do governo acaba de ameacar-me de demissao caso nao conseguisse a tua detencao e que tu serias amnistiado apos julgamento apropriado. Ve o que queres fazer, toda a familia chora o teu desacato e o pai do teu colega Antonio, juiz no Tribunal Supremo, acaba de se suicidar para nao ter de condenar o proprio filho unico com sentenca antecipadamente conhecida.

Joao(em tom alto e reprovativo)

-Afinal vens ca por causa do teu cargo, para o defenderes, e a familia; se o pai do Antonio se suicidou foi porque era a unica solucao para ele e tu proprio teras de fazer outro tanto brevemente - o monstro cobra o seu juro de sangue a todos, carne para canhao, suor e sangue e suicidio "in extremis"; nao te iludas, pois acabas de me entregar agora.

(Para o tenente, que estendia algemas, para as quais o pai faz gesto negativo.)

-Sei portar-me como um homem, ja que vos os mais velhos e responsaveis, nao o sabeis ser ate ao fim; siga-me.

(Pano)

III Act

(Sala comum de tribunal, com publico nitidamente estudantil e operario; advogados semi-ensonados e tipicos dos tribunais portugueses fascistas: ferozmente pessoalistas e autoritarios ou bajuladores dos superiores hierarquicos, cheios de intrigazinhas entre si, autosuficientes ou untuosos em extremo, ora conciliadores ora descordantes em extremo, muito religiosamente sitacionistas a namorarem as promocoes, facilmente inclinados a tendencia de encaminharem pormenores mesquinhos para factos de intransigencia politica, dando relevo a factos secundarios para evoluirem o desfecho do julgamento, antecipaddamente bem conhecido de toda a gente (so eles a fazer de actores teatrais que nao sabem que estao a representar e sim a viver a realidade objectiva), para dar uma ilusao logica. No meio deles so se destaca o advogado de defesa, oposicionista um tanto filantropico, exercendo profissao por conta propria e habitualmente encarregado de tais defesas, por isso sem ilusoes do resultado da questao, so a tentar atenuar os efeitos do furacao, forca humana impotente perante a forca bruta dos elementos desencadeados. Longas predicas que giram em tiradas eternas sobre o mesmo tema de sentenca pre-determinada, circulo vicioso que faz adormecer as proprias moscas e so empolgam o proprio advogado de acusacao, sempre esperancado de ser notado pelos superiores para a promocao no posto respectivo; os restantes colegas cabeceam de sono, a pensarem na vida particular e simulando dar atencao ao "ilustre colega" com o abanar da cabeca de sim, provocado pelo sono. Volta e meia ha uma voz exaltada, cujo dono nao pode suportar mais as vilanias ouvidas, que verbera contra a injustica do advogado de acusacao, que ja fez passar o reu, Joao da Costa e Silva, por "dragao vermelho, totalmente debochado, ele proprio confessou ja ter seduzido a inocencia da prendada menina Maria da Conceicao Helena Rosario da Silva, etc", voz que, automaticamente, leva o senhor juiz presidente a impor silencio para nao fazer evacuar totalmente a sala e muitas vezes a mandar que os agentes da ordem, que se fazem numerosamente representar, prendam o elemento do publico que se atreveu a insultar o tribunal na pessoa do ilustre e digno advogado de acusacao, peripecia que da azo a uma cena comica com o "eu nao fui" duma barafunda infernal. Por sua vez o advogado de defesa e seriamente admoestado a moderar-se nos errados termos da sua exposicao, que afectam o tribunal - de que ele se defenda alegando tais termos serem-lhe necessarios para honesta defesa do seu constituinte, mas o que ao fim e ao cabo faz parte do julgamento, ja que tais advogados de defesa nao podem ser detidos, para haver uma ilusao da defesa dos reus - e divagam sobre o motivo principal. A cena deve dar a impressao do tribunal estar na ultima sessao do julgamento do caso. Estao tambem presente Maria, que chora desesperadamente e traja de negro em sinal de luto por Joao, e o pai deste, destituido do cargo ministerial, ja bastante grisalho, em contraste com a primeira aparicao em cena, mais mal apresentado de vestuario e de expressao profundamente sentida.)

I Cena

Advogado de acusacao(em tom auto suficiente e perentorio de homem bem instalado na vida, comicamente superior)

-Ilustrissimos senhores jurados: como ha varias sessoes venho a salientar e estou profundamente certo da vossa inteligencia, o reu, jovem viciado preversor de uma, ou mais, virtuosa, inocente, prendada e exemplar donzela, cujo nome me abstenho de citar em lugar tao publico, mas que se encontra presente, fechada no luto da sua dor atroz de enganada criminosamente...

(voz anonima da assistencia : Assassino! - Martelo e voz automatica do juiz presidente: "roga-se aos agentes da ordem que prendam o individuo que insultou o digno e ilustre advogado de acusacao tao infamemente". Um policia avanca para o publico na hipotetica direccao da voz e pretende prender um homem, que verbera "eu nao fui" e gera grande disturbio quando este homem disse ter sido a frente e o policia faz mencao de prender um outro que repete a cena para tras; martelo furioso do juiz presidente que avisa em voz exaltada: "silencio, ou mando encerrar a audiencia". Por fim um homem qualquer e arrastado para for a da sala pelo policia e renova-se o silencio. Nestas ocasioes acordam os advogados, cabeceando de sono, sobressaltados e parecendo cair de outro planeta.)

-criminosamente, dizia eu; o reu, jovem que tambem podia servir a causa de Deus, Patria e Familia,

(olhar liquido e desprezativo de Joao, que poucas vezes olha o advogado de acusacao e que quando este fala parece simular dormir)

-nao e mais que um escolho da sociedade, resultante da influencia, voluntariamente aceite por ele, da pior escumalha da nossa insigne sociedade.

(Voz do publico de "sujo" e repeticao da cena atras)

-o reu, dizia eu, que desprezando as sabias liccoes dos seus cultos e dignos mestres, a prepara-lo para a santa missao nacional

(voz jovem do publico de um estudante de"cretino" e repeticao das cenas analogas atras)

aceita, em parte influenciado pelos nefastos contactos com a joventude estudantil estrangeira, por intermedio da Associacao dos Estudantes, as liccoes comunistas de Moscovo e prega o apocalipse universal bolchevista. Provas cristalinas eirrefutaveis? Tenho a honra de apresentar a V. Exas. as dignas testemunhas que o prenderam.

Advogado de defesa(em tom digno, mas cansativamnete desiludido)

-Peco a V. Exa., sr. juiz presidente e aos dignissimos membros do juri, que se dignem conceder atencao para o facto demagogico do sr. advogado de acusacao apresentar ate agora testemunhas "a posteriori" da evolucao do caso do acusado, sendo que, nomeadamente, o meu constituinte nao pretendeu mais que reformacao democratica dos principios vingentes e que, concomitantemente, as testemunhas nada mais - e alias muito suspeitosamente na sua honorabilidade pela logica das suas afirmacoes - que uma prisao e nunca um motivo de causa no processo em julgamento, capaz de definicao de fim em vista.

Juiz presidente(em tom autoritariamente perentorio)

-Peco ao sr. advogado de defesa se modere na sua fraseologia, que so diverge do caso, para nao ser obrigado a mandar proceder contra ele, por insultar os principios do tribunal constituido.

(Grande vozearia e martelo presidencial a impor silencio.)

Advogado de acusacao(para a 1a. testemunha, o tenente da G. N. R.)

-Conhece o reu?

1a. testemunha(em tom perentorio militarista)

-Perfeitamente, sr. doutor: quando me apresentei para o prender surpreendi-lo a amotinar os colegas contras as forcas constituidas com palavras verdadeiramente comunistas, tendo comandado a insurreicao armada e ferido muitos dos agentes da forca publica as minhas ordens para o prender. Mais, e a Bem da Nacao, cumpre-me informar que me vi constrangido, pela primeira vez na minha vida em tais accoes de repressoes populares, a dar ordem de retirada, em face da minha desvantagem pela estrategia usada pelo inimigo.

Advogado de defesa

-Quer a testemunha fazer o favor de se pronunciar sobre as condicoes no recontro e como encontrou o local a chegada?

1a. testemunha

-Saiba V. Exa. que os estudantes nos apedrejaram por entre as arvores, a forca publica, sem respeito pela autoridade e pelas armas; quanto ao local quando chegamos apresentava-se na seguinte forma: no salao onde nos concentramos, e aparte do qual desmontamos, estavam apenas os professores, e na cerca, escondidos por detras das arvores, o que foi tambem, por apanhados de surpresa, um dos motivos da nossa retirada, muito calados e emboscados, os estudantes.

Advogado de defesa

-E foi entao que o sr. tenente deu voz de prisao a Joao da Silveira?

1a. testemunha

-Sim, senhor: alias depois de ter convidado o corpo docente a retirar-se e o sr. reitor negar-se a faze-lo, mas acabando por convencer-se pela ordem escrita que tinha em meu poder.

Advogado de defesa

-Muito obrigado sr. tenente, estou satisfeito; dignissimos srs. jurados: queiram V. Exas. notar todas as contradicoes evidentes da primeira testemunha desta sessao.

Advogado de acusacao(em tom de voz zangada e choramingona)

-Protesto sr. juiz presidente, protesto contra a forma capciosa com que o sr. meu colega enredou a testemunha e conseguiu tirar dela informacoes que nao estavam no seu proposito divulgar.

Juiz presidente(em tom de voz monocardicamente ritual)

-Protesto aceite, ficam sem efeito as declaracoes da testemunha referentes a segunda parte.

(Voz do publico de "Reles" e repeticao de cena para tras descrita).

Advogado de acusacao(para a 2a. testemunha, um policia)

-conhece o reu?

2a. testemunha(aspecto muito rustico)

-Sim, sr. juiz.

Advogado de acusacao(em tom rogativo)

-Faca favor de nos dizer o que sabe sobre ele.

2a. testemunha(em tom de liccao decorada)

-Quando la "cheguemos" ao colegio estavam espalhados por todas as carteiras da sala de aulas livros "vermelhos" todos rasgados - naturalmente aquilo eram os professores que os rasgaram por "via" da cor dos livros, para os alunos nao poderem lerem coisas proibidas por lei; quero dizer: eu li o titulo de um de esses livros e falava la na Russia e no Ze serralheiro, o dos bigodes. Quanto a conhece-lo, conhece-lo, diz que ja o pai dele quando era ministro era muito femeeiro...

(risos brandos no publico)

-mas isto sao coisas la dos senhores da alta

(diz esta frase virado para o publico assistente, em tom semi-confidencial, semi-reprovativo)

-com respeito ao respeito e que foi uma pouca vergonha; desonraram-nos a farda e a mim deram-me tantas que ate a ordinaria da minha mulher ficou toda satisfeita quando me viu, dizendo que foi em paga das que lhe "malho" nela

(risos mais voluntarios do publico)

-Pois entao, ela quer que eu o va roubar para lho dar, mas eu e que nao sou da fiscalizacao e quando nao posso nao posso mesmo

(gargalhadas do publico, risos disfarcados dos advogados e olhar interrogativo-zangado da testemunha)

Advogado de defesa

-Teria a testemunha visto na sala de aulas alguma obra de Karl Marx, Estaline ou Lenine?

Advogado de acusacao

-Protesto sr. juiz presidente, protesto contra a forma impropria com que o sr. meu colega da defesa pretende iludir a testemunha.

Advogado de defesa(cortando a palavra ao juiz presidente)

-Pois proteste, proteste, que eu me vou ja embora se nao me deixam trabalhar por meios legais.

Juiz presidente(parecendo recear a saida do advogado de defesa)

-Protesto nao aceite; queira a testemunha continuar.

2a. testemunha(em tom automatico e imediato)

-Nao senhor, so de quem ja disse, do Ze serralheiro, que Deus lhe vele a alma.

Advogado de defesa(em tom profundamente compreensivo)

-Coitado, ja morreu?

2a. testemunha(em tom mais intimo)

-Sim senhor, que ele sempre ja devia ter hoje os seus 90 anos,

(gestos aflitivos do advogado de acusacao para a testemunha se calar, mas esta nao o ve)

-se ate andou com o meu defunto pai na escola!...(vozes do publico de "fora, fora" e repeticao das cenas anteriores quando o publico se manifesta)

Advogado de defesa

-Obrigado estou satisfeito.

(virando-se para os jurados)

-Senhores: vos proprios sois de acordo na inepcia trabalhada de mais esta testemunha, em face disso dignai--vos dar o vosso "veredictum", como e de justica, a favor do reu neste serodio julgamento...

Juiz presidente(cortando a palavra ao advogado de defesa, em tom perentoriamente admoestante)

-Volto a chamar a atencao ao sr. advogado de defesa para os termos e taticas usadas, que lhe podem trazer serios dissabores.

Advogado de defesa(em tom zangado)

-Se V. Exa. nao me deixa falar em defesa do reu "isto" deixa de ter defesa, pois desisto; aqui lavro o meu protesto contra os meios ilegais do tribunal.

Advogado de acusacao(aos berros)

-Protesto sr. juiz presidente, protesto:o sr. meu colega de defesa, alem de usar meios improprios, chega a insultar, aproveitando-se da sua simplicidade, a minha testemunha...

2a. testemunha(em tom ofendido)

-Nao que entao, vem um homem ca para lhe chamarem nomes, inerte e ele e mais a familia; sou pai duma menina e a minha mulher que o diga!

Advogado de defesa(em tom chocarreiro, a imitar o advogado de acusacao)-Protesto sr. juiz presidente, protesto: a testemunha, o exc. sr. policia, acaba de insultar o tribunal na minha pessoa e peco a V. Exa. se digne proceder.

Juiz presidente

-Peco aos agentes da ordem para prenderem o sr. advogado de defesa, quero dizer, a testemunha.

2a. testemunha(em tom muito zangado)

-Ora gaita! Agora ate me prendem? Entao foi para isso que o nosso tenente me esteve a ensinar o que havia de dizer e me pediu para vir ca?

(vai o policia preso arrastado pelo agente da ordem, indo dizendo a tirada anterior)

Advogado de acusacao

-Protesto sr. juiz presidente, protesto: a testemunha foi nitidamente explorada pelo meu colega da defesa, rogo que so as primeiras afirmacoes da testemunha constem dos autos.

Juiz presidente

-Protesto aceite e que este ultimo depoimento sirva de liccao ao sr. advogado de defesa.

Joao(levantando-se, palido e abatido, e num tom ora perentorio, ora desprezativo, ora melancolico)

-Acabemos com esta fantochada; eu e que sou o principal implicado no julgamento, nao revelo o nome de ninguem por mais que venham ainda a torturar-me; nao reconheco testemunhas miseraveis de acusacao; que ja se apresentaram neste tribunal a mais que todos os agentes da forca publica empregues na sufocacao da intentona de libertacao por nos, os jovens; jaz que vos, os velhos, nao passais de sendeiros abjectos...

(martelo furioso do juiz presidente)

-nao, nao me calo ate que tenha dito tudo, ainda que para tal tenha de comer este comprimido de morte instantanea, que sempre e melhor que todas as torturas sofridas e a sofrer - e se me nao encontrar presente nao se realiza o julgamento tao dos vossos baixos propositos.

(Novamente o martelo a palmas do publico assistente)

-tenho direito de dizer o que alego em minha defesa e da verdade cristalina. Conheco as vossas leis, que vos so sabeis promulgar a vosso favor e para calcar a maioria,

(palmas e martelo)

quer civis, quer eclesiasticas e nunca nenhum povo com um minimo de liberdade e consciencializacao as poderia aceitar, mas vos impuses-te-as pela forca;

(palmas publicas furiosas e martelo)

-como tal, que valor esperais que tenham? So servem para irritar e fazer sorrir, parecem fantasmas negros de asas, pois fantasias tendes vos, mas a fantasias horrivel dos monstros.

(palmas do publico)

Quanto a minha vida intrinsicamente pessoal, como ser humano normal que sou, garanto-vos que nao me armo em D. Joao com deposito a ordem no banco; nunca, como vos pretendeis que "e a vida", seduzi alguma servical a custa do dinheiro, qual compra de carne humana;

(choro feminino de Maria, palmas que depois o abafam, do publico e martelo)

-alem de que nao precisei das vossas "prendas" para me fazer amar: amor plenamente correpondido, alias, pois tenho mais do que vos e melhor, tenho os valores verdadeiramente humanos (quais tendes vos? Mas os desumanos, os da besta humana, os das feras e das mais atrofiadas); sim, continuai a vender as vossas filhas ao "melhor partido", no casamento, aos melhores empregos, que nao andais longe da aberracao monarquica; ou o que representa a vosa Santa Madre Igreja?

Escudai-vos nos vossos valores espirituais, que sao as vossas tropezas mais consumada e continuai a aplaudir ditaduras perpetuas, que la terei a classe pequeno burguesa a aguentar-vos, ate que um dia tereis de prestar contas aqueles que tao indigna e miseravelmente representais; nao vos esquecais, a roda da Historia nunca para, pois nunca se tinha visto, variante infalivel, o homem escravizado a maquina; depois chorai e desesperai, que o poder se vos evaporou por entre as maos. Entretanto ide vivendo com a morte na alma e alegai que a culpa e dos outros.

Mas para que penintenciar-vos? Tinha jurado a mim mesmo nao abrir a boca, que vos, no vossa arenga, nada admitis; a sentenca esta ditada ha muito - sois apenas fantoches a representar uma comedia, que e a vossa vida - tapais ostensivamente os olhos, angustiadamente os ouvidos a realidade, esgotando ate a ultima gota os prazeres de cada minuto do dia a dia, tendo um medo asfixiante do futuro, vivendo do ontem e do dia de hoje.

Condenai-me, e para isso que estais aqui e vos pagam: Que obedeceis a ordens superiores? E vos que sois? Trapos humanos? Para isso nao e preciso haver seres humanos, seres complexamente superiores! Sim, condenai-me, mas a seguir ou vos suicidais ou fazeis alguma coisa util a sociedde, que na sua maioria so tendes desfraudado. Legislai, executai, mas decentemente, lembrando-vos que sois apenas uma pequena parte dum todo e os seres humanos sao organicamente iguais e a qualidade destintiva e sinal de raciocinio retrogrado e vos, que pretendeis viver na Idade Media, nao queirais retrogredar a especie humana a Idade da Pedra - nao o tempo nao pode voltar atras ou parar, e essa a primeira lei da vida, o tempo nunca se repete, a nao ser em pesadelo; ou para que houve tanto trabalho a descobrir o calendario? Deixai o obscurantismo, abri os espiritos a luz da ciencia, vos que vos intitulais cientistas e nao passais vagamente de "cientistas da sardinha e similares".Enfim, se quereis dar algum significado as vossas vidas optai: ou o suicidio ou a revolta; mas nao, nao estejais tao serios, dando-vos ares de filosofos em questao transcendente, isto e simples como a agua, vos e que fazeis as dificuldades com a pseudo-ciencia, que nao e mais que a expressao dos vossos interesses somente materialistas e um certo progresso tecnico. A questao e, uma vez por todas _ como dizeis mais val tarde que nunca - chegai definitiva e convictamente a tal solucao, nao facais como e vosso habito (daqui a pouco, quando terminardes mais este julgamento, quando sairdes aquela porta, nao esquecais tal, pensando que a vossa mulher e isto ou aquilo, que ireis ter tal ou qual jantar, que o vosso colega tem mais sorte na carreira, que precisais de isto e daquilo, etc), sim, a questao e:querer ou nao querer.

Bem, eu termino:ja sei que vos roubei o vosso "precioso tempo" (tempo de mal, magistrados, tempo de executar uma vida escura e as ordens superiores, tempo despersonalizado), que vos incomodei sem ter tal direito. Bem sei nada ha a fazer, nada a esperar, convosco: madeira corcomida nunca mais volta ao estado primitivo; nao, nao sao os velhos que operarao a modificacao necessaria, mas so a juventude - vos so tendes a fazer uma especie de boicotagem aos poderes instituidos, permitindo esse operar aos novos.

Condenai-me, como nao podeis de deixar de fazer, mas lembrai-vos que amanha talves tenhais que condenar os vossos proprios filhos, que talvez estejais na situacao do meu desgracado pai (soluco profundo deste), ou que na meta da vossa vida talvez encontrei o suicidio ou a loucura, como solucao unica de toda a vossa vida.

Viva a liberdade da Humanidade! (Gritado)

(vivas ao fim de alguns segundos de silencio em toda a sala, silencio ocasionado pelo estado de absorcao da tirada acima por todo o tribunal, juizes e publico; vivas prolongados do publico, quais espectadores do desfile das legioes romanas dos herois da guerra, que no dia seguinte poderiam estar mortos no campo de batalha, aplausos vibrantes e martelo furioso do juiz presidente, que parece despertar mal disposto dum pesadelo custoso. Ao fim de alguns minutos consegue-se restabelecer a calma e o silencio.

Juiz presidente(em tom enfatico e definitivo)

-Em face do depoimento do reu, creio, dignissimos jurados, que nao vos restam duvidas da pena a aplicardes...

E encerrado o julgamento para conferencia dos snrs. jurados.

(Assobios do publico, que e posto fora das portas pela policia; Joao e espancado e escoltado para a cela.)

IV Acto

I Cena

(Novamente a sala do tribunal)

Juiz presidente

-Srs. jurados: sois os juizes integros da causa, nao tenhais piedade; a pena de morte infelizmente ja foi abolida para bandidos da pior especie, que bem a mereciam; grande merce e conservar-se a vida, ainda que em prisao maior para celerados que sao contra Deus, Patria e Familia: a fe de quem sois, dignai-vos ditar a vossa sentenca.

(Levanta-se um dos jurados e em tom monocordico, de quem recita licao aprendida de cor, mas um tanto fria e comprometidamente)

Jurado(voltado para o juiz presidente e para o tribunal, que encara acanhadamente)

-Dignissimo sr. juiz presidente, respeitavel tribunal: a sentenca e... a condenacao por toda a vida a pena de prisao maior, agravada para cela especial, numa ilha de Cabo Verde.

(Grande silencio. Soluco profundo do pai de Joao, berro desesperado de Maria e grande algazarra e assobios ferozes do publico. Joao solta uma grande gargalhada de sarcasmo depois do soluco profundo do pai. O juiz presidente bate o martelo e da por terminado o julgamento, em frase que se nao percebe nem ouve na algazarra geral.

A policia volta a matraquear o publico, que foge em todas as direccoes, se atropela e grita; alguns elementos sao detidos e retirados pela policia.

No meio Joao e literalmente espancado e empurrado pelos guardas da policia politica para fora da sala.)

V Acto

I Cena

(Numa esplanada dum café, na roda a volta de uma mesa de universitarios)

1a. voz

-E gente, lembrais-vos daquele gajo que no ano passado foi condenado por politica? Um tal Joao nao sei quantos... O gajo era teso, hem? Mas meio maluco, nao? Enfim coisas da vida...

2a. voz

-Maluco e cretino es tu, que andas no mundo por ver andar os burros.

3a. voz

-Pronto, la esta este gajo a desconversar.

2a. voz

-Mas tu nao ves que e questao de destrincar o trigo do joio e...

4a. voz

-La vens tu com a filosofia (estes gajos de historico-filosoficas sao intoleraveis), guarda isso para ti, homem!

2a. voz

-Bem convosco nao se pode conversar, esta visto e revisto; vou-me andando.

4a. voz

-Homem, vais embora por eu te dizer que es intoleravel?

2a. voz

-Nao; falta-me saber qual e a medida da intolerancia e quem o e. Vou-me embora porque nao quero que me aconteca como o Passos de Agronomia, que estava a falar num café como uma besta que o empolgou na conversa, concordando, sobre a politica e no fim foi denuncia-lo a um bufo perto e foi para " as grades"; Falta-me saber ate que ponto sois abjectos! (Sai com um ar meditabundo e quezilado)

1a. voz

-Bom rapaz, mas um pouco maluco, quer modificar o mundo em dois dias - se ele soncegui-se modificar o tempo, que faz um calor dos diabos!

4a. voz

-Mas voltando a vaca fria: lembrais-vos da miuda do tal Joao, boa gaja por sinal, que desmaiou e tudo na despedida dele no cais, junto ao barco que o levou para o Ultramar? Diz que a familia nunca mais a aceitou e foi parar "a vida".

O Artur de Engenharia e que foi cacado logo no julgamento, o anginho tambem nao podia passar sem ir la meter-se na boca do lobo (ora topai se aquele gajo ali nao esta a reparar na conversa, nao va o gajo ser da "pevide"...) e depois teve um julgamento a porta fechada: um ano de pena menor e medidas de seguranca; um infeliz, que estava no ultimo ano e agora nao passa de um guarda de carros a receber tostoes ai a diante.

Coisas da vida!

Mas que calor!

E pa, traz mais uma "imperial" (para o velho empregado do café que passa)

Estou "lixado": o meu velhote nao me quer aumentar a mesada e nao posso viver.

3a. voz

-Ainda tu querias comprar o "seven": la que o carro e bestial nao ha duvida, ca um bolido!... Uma mecanica mais gira! E a caixa de velocidades?... E depois e que se engata ca umas gajas de estalo com ele (sabeis que a D. Maria tem la em casa gajas acabadas de chegar da Provincia? Raparigas de se lhe lamber a beica e nunca mais acabam de chegar, ate parece que os pacovios dos pais nao fazem mais nada que faze-las a elas para a gente se regalar a "come-las"). Mas e preciso massa. Isso e vida para menino de pai rico, que ate pode ter "M G" e tudo; nao percebo certos animais: este gajo que se foi agora embora ate "chauffeur" tem e o pai comprou-lhe carro; mas que, o gajo mete-se na politica!...

(cai o pano)

O autor lamenta nao ser possivel incluir acentos, dadas as condicoes to teclado do computador americano.